sexta-feira, 30 de setembro de 2011

"Olhos monocromáticos"

by: Victoria Dias

Seus olhos são monocromáticos
como o brilho da lua no céu.
Não sei tirar de mim essa admiração que sinto por você.
Tudo parece surreal.

(É tão perigoso...)

Na última noite de terça-feira,
estive pensando em você.
Peguei-me a imaginar teus olhos.

É tão perigoso...

Você não sabe de mim
e talvez fique por isso mesmo.
Covarde sou eu, 
que mais uma vez não irei atrás.
Irei deixar passar.

domingo, 21 de agosto de 2011

O último dia. (parte 11)

   Ela estava em silêncio. Nós estávamos em silêncio. Não consegui dizer nada.

   Eu não tinha reparado antes, mas ela tinha um colar de coração no pescoço. Daqueles que podem se abrir e conter duas fotos dentro. Tentei tocar o colar para abri-ló e ver se tinha alguma foto lá, mas minha mão atravessou. Ela pegou o colar, o abriu e mostrou-me o que tinha dentro. As duas fotos eram minhas. A primeira foto era de quando eu tinha três anos de idade, no dia em que Cece nasceu. A segunda foto era no dia de meu aniversário de dezoito anos anos.

   Eu continuei sem dizer nada. Será que... ela me amava mais do que eu a amava? Ela estava morta a dois dias que pareciam ser dois anos. Deitei-me na cama, não demorou muito e Cece deitou ao meu lado. Eu estava com sono, logo dormiria. Pus minha mão em cima da mão dela, mesmo sabendo que não poderia tocá-la. Mas eu pude quase sentir, quase pude sentir que a estava tocando.


   - Sabe - disse ela -, logo você poderá me tocar de verdade.
   - Sério? Como?
   - Bom, se vou te proteger, tenho que te tocar. Quando o inimigo estiver perto de chegar, o sinal de que ele vai estar chegando vai ser...
   - Que eu vou poder te tocar.
   - É. É isso.


   Continuamos em silêncio até eu pegar no sono.


   Sonhei que Cece tinha asas de anjo. Ela estava me protegendo. Estava parada na minha frente de braços e asas abertas, com a cabeça baixa. Suas vestimentas brancas estavam todas cortadas e todo o seu corpo, até suas asas e seus lindos cabelos loiros estavam cobertos de sangue.
   Á frente dela havia um garoto, eu não conseguia ver seu rosto. Ele se parecia com um anjo, mas suas asas e roupas eram negras e seus olhos eram na cor escarlate.
   Ele tinha uma espada completamente dourada nas mãos. Ela estava coberta de sangue. O sangue de Cece.


   Eu ainda estava dormindo, mas senti uma dor terrível, como se a espada dourada do garoto tivesse atravessado meu corpo. 


   Acordei atordoado, gritando. Levantei-me da cama e senti a dor novamente. Pus a mão onde doía e caí de joelhos no chão. Observei a cama de Cece e havia uma mancha de sangue onde eu estava deitado. Meu olhos se arregalaram e eu olhei para mim mesmo. Eu tinhas cortes no corpo todo. Meu pijama estava ensopado de sangue, mas eu já não sangrava mais.
   Olhei para todos os lados. Não havia ninguém no quarto comigo. Levantei-me com muita dificuldade e caindo muito por causa da dor, tentei ir até meu quarto.
   Quando cheguei ao meu quarto peguei uma calça, uma camisa e roupa de baixo limpa. Fui ao banheiro e tomei um banho para limpar as feridas. Joguei a roupa ensanguentada no cesto de roupas sujas e peguei o quite de primeiros socorros dentro do armário debaixo da pia e tratei meus ferimentos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O último dia. (parte 10)

   Ela parou de falar e suspirou.
   - Tem mais. Ele ainda disse mais.
   "- Porém, existem aqueles que tem o coração sombrio. Estes não podem ser purificados e nem virar aprendizes. E eles não vem para cá. Eles vão para a sala de baixo, e esta fica nos confins do inferno. Quando vão para lá, passam a ser chamados de caídos. Os superiores de lá mandam os caídos virem para a Terra, e fazer mal ás pessoas. Algumas dessas pessoas são específicas. Elas são as pessoas que os aprendizes devem proteger."
   - Foi o que ele disse. Mas nós, aprendizes, só podemos vir a Terra quando nos é notificado que um caído vira atacar nossos protegidos.
   - Ce... ce... Ma-mas porque você virou uma aprendiz? Porque não é um anjo? Que desejo pendente é esse? E porque EU sou o seu protegido?


   Eu estava assustado. Um caído viria me pegar. Ele queria me machucar. Mas porque Cece não era um anjo? Eu era quem ela mais amava? Eu soava frio. Eram muitas coisas para assimilar.


   - Sou uma aprendiz porque tinha um desejo pendente antes de morrer. Meu desejo era... Eu... Eu queria ficar com você para sempre. Mas eu morri, e não pude ficar com você. Por isso não sou um anjo. E Jesse, eu amava você mais do que qualquer pessoa no mundo. Amava você mais do que nossos pais.


   Eu estava paralisado. Cece não pode virar um anjo por minha causa. Ela só tem que me proteger porque virou uma aprendiz, e porque virou uma aprendiz um caído vai vir atrás de mim.
   - É tudo culpa minha - disse -.
   - O que está dizendo? É culpa sua o que?
   - Culpa minha você não ser um anjo. Você não pôde virar um anjo por minha causa, porque me amava demais. Você só tem que me proteger porque virou uma aprendiz por minha causa, e porque virou uma aprendiz um caído vai vir atrás de mim. É tudo culpa minha Cece.
   Cece ficou com raiva. Sentou-se na cama e tentou me bater, mas não conseguiu. Todas as vezes que tentava atravessava meu corpo.
   - Seu idota - ela dizia -! Porque sempre acha que a culpa de tudo é sua? Eu estou feliz por poder te proteger, porque você sempre me protegeu. A minha maior felicidade agora é poder ser a sua anjinha da guarda. Então porque se culpa?
   Eu tentei tocar seu rosto, mas minha mão atravessou sua cabeça. Cerrei os punhos e disse:
   - Estou me culpando porque sei que vai se machucar me protegendo.

O último dia. (parte 9)

   Senti um calafrio e frio, muito frio. Olhei para o lado e mal pude acreditar no que vi. Levei o maior surto de minha vida, até cai da cama. Estava apavorado.
   - Eu... não... acredito...
   Ela sorria para mim. Ela estava lá, ela realmente estava lá.
   - Olá Jesse.


   Ela estava lá. Estava rindo da minha queda. Realmente era ela.
   - Francamente, você não muda mesmo depois de morta - disse -.
   - Morri, mas ainda sou a mesma pessoa.
   Eu sorri, subi na cama e tentei abraça-la. Tentei.
   - Eu estou morta Jesse, não pode me tocar. Sou como a imagem de um projetor de imagens.
   - Porque posso te ver e te ouvir, mas não posso te tocar?
   - Como eu não sei, só sei que pode. Estou morta, você não seria capaz de me ver, me ouvir e me tocar. No entanto, graças aos meus superiores, você é capaz de duas delas.
   - Você é um fantasma, Cece?
   - Não.
   - Um anjo?
   - Uma aprendiz.
   - De anjo?
   - É.


   Estava assustado. Aquilo tudo era muito surreal. Ser capaz de ver uma pessoa que morta... Eu estava louco, ou aquilo realmente estava acontecendo?
   - Porque você está aqui?
   - Para te proteger - ela disse -.
   - Me... proteger? Você que é a alma aqui, eu sei me virar!
   - Ah Jesse... Mesmo ainda estando vivo, é tão cabeça dura.
   - Está me irritando. Vamos, explique, porque está aqui e o que veio fazer.
   - Já disse, vim para te proteger.
   - E porque você? Ainda é uma aprendiz. Porque não enviaram um anjo completo?
   Ela suspirou, pôs a mão sobre a testa e disse:
   - Está bem, vou dizer tudo o que sei.


   - Vejamos... Vou começar desde quando morri.
   Ela suspirou, deitou-se na cama e começou a falar.
   - Quando morri, sei que estava dormindo. Não sei para onde fui, mas parecia que estava sonhando. Era tudo muito claro. De repente, eu estava sentada em uma cadeira em um sala que parecia ter paredes de nuvens. E tinha um velho lá. Ele falou comigo.
   "- Olá Cece. Bem-vinda á sala do trono. Vou lhe explicar tudo. Você morreu. Todos que morrem vem para cá. Aqueles que tem o coração puro e nenhum desejo pendente antes da morte, passam a ser chamados de anjos quando chegam ao céu. Estes tem três tarefas, e estas são: dar instruções para aqueles que chegam a sala do trono, ficar na Terra para proteger humanos inocentes e serem mestres dos aprendizes.
   Aqueles que tiveram suas almas corrompidas durante sua vida na Terra, são purificados e enviados ao céu para descansarem para sua próxima vida. Quando chegam ao céu, passam a ser chamados de guardiões. Eles protegem o céu daqueles que querem entrar  para fazer o mal. Aqueles que não tem maldade no coração e tinham algum desejo que não conseguiram realizar antes de morrer, como você, viram aprendizes de anjos e passam a proteger a pessoa que mais amavam antes da morte. Estas pessoas são chamadas de de protegidos."

sábado, 13 de agosto de 2011

O último dia. (parte 8) - A segunda carta


   Querido Jesse,

   Estou te escrevendo para lhe falar da minha doença. Como você sabe, andei fazendo uns exames... Pois é. Eu tenho câncer. E eu vou morrer, meu câncer não tem cura. Nós o descobrimos tarde demais para fazer um tratamento, o máximo que posso fazer agora é tomar remédios para não sentir dor.
   Não sei quanto tempo ainda vou viver, mas o médico disse que vou saber quando meu último dia chegar.

   Esta carta é para você, mas você não irá recebê-la. Ela é para que eu possa desabafar, já que não gosto de diários. É muito fru-fru.
   Não me leve a mal, mas te amo, então não quero que sofra, ok? Você me entende, não é? Você faria a mesma coisa por mim.
   Pode ficar com raiva de mim depois que eu morrer e você descobrir que eu tinha câncer e que eu não lhe contei. Eu entendo.

   Até minha morte, quero viver normalmente. Só papai, mamãe e o médico sabem que estou doente. Mas eu sei o que vou fazer no meu último dia. Vou passá-lo com você.

   Olha Jesse, te amo. Te amo mais que tudo. E sinto muito não poder cumprir a promessa que fizemos um ao outro. Eu não quero ir, quero ficar com você. Para sempre. Mas eu não tenho controle sobre minha vida. Não sou a dona morte.
   Desculpe-me por ser tão fraca a ponto de ter uma doença que irá me matar.

   P.S: Não fique triste quando eu morrer. Vou partir, vou virar uma anjinha, mas vou sempre olhar e estar com você. Não se preocupe. Não ficarei longe. 
            Quando sentir minha falta, feche os olhos e respire fundo. Saberá que estou pensando em você.

                                                                                       Cece.

   Ah, Cece... Você nunca se preocupou consigo mesma - pensei -.
   Uma lágrima rolou pelo meu rosto. Eu sorri.
   Prometemos ficar juntos para sempre. Promessa de dedinho.
   - Sua bobinha... Você está bem ao meu lado agora, você está cumprindo a promessa.

O último dia. (parte 7)

   Eles não vieram. Então voltei para dentro de casa por conta própria. Meus pais estavam sentados na mesa de jantar. Estavam calados. Me juntei a eles, todos ficamos calados. Por fim, minha mãe disse, olhando para mim:
   - Querido, você vai querer estrogonofe?
   Fiz que sim com a cabeça e ela pôs meu prato.
   - Não quero comer, estou cansado. Vou dormir - disse meu pai -.
   Eu e minha mãe jantamos sozinhos, depois do jantar eu a ajudei a botar a louça na máquina de lavar louças.


   - Filho, você sabe o que seu pai tem? Ele não quis jantar, estrogonofe é o prato favorito dele.
   Fiz que não com a cabeça. Fui ao banheiro escovar meus dentes e tomar um banho. Meu pijama e minhas pantufas ficaram sujos por eu ter ido ao jardim com eles. Cece tinha me dado um pijama estampado de céu com nuvens e pantufas de brancas. Eu os usei.
   Fui ao quarto de Cece para voltar a olhar a caixa que ela deixara para mim, mas as coisas não estavam como deixei. Papai tinha mexido na caixa. Ele viu algo que o perturbou, por isso estava daquele jeito no jantar.


   Cerrei os punhos. Porque tínhamos que passar por tudo aquilo aquilo? Meus pais e eu estávamos sofrendo, cada um do seu jeito. Porque tivemos que perdê-la? Porque aquele maldito câncer tirou minha irmã de mim?
   Eu estou sendo totalmente egoísta - pensei -. Meus pais estão sofrendo tanto quando eu, talvez até mais.
   Mas eles não mostrariam isso para as outras pessoas. Eles são fortes, e principalmente, queriam me proteger. Me fazer sentir menos dor. Eles ainda estavam ali. Eu não estava sozinho. Eu tinha pessoas que cuidariam de mim.
   Eu não estava feliz, mas estava aliviado. Eu tinha meus pais.


   Voltei a olhar a caixa. Não tinham muitas coisas nela. Eu não lembrava das coisas que ainda tinham nela, exceto uma.
   Tinha outra carta de Cece para mim. Mas essa não era recente, era do ano de 2006. Cece tinha dez anos e eu tinha treze.
   Fiquei nervoso. O que será que ela tinha escrito ali?
   Eu abracei a carta, forte, em meu peito. Eu a amacei. Eu não tinha coragem para ler aquilo naquela hora. Mas eu tinha que ler.
   Abri o envelope. Comecei a ler a carta.
Fuckin Perfect - P!nk