domingo, 21 de agosto de 2011

O último dia. (parte 11)

   Ela estava em silêncio. Nós estávamos em silêncio. Não consegui dizer nada.

   Eu não tinha reparado antes, mas ela tinha um colar de coração no pescoço. Daqueles que podem se abrir e conter duas fotos dentro. Tentei tocar o colar para abri-ló e ver se tinha alguma foto lá, mas minha mão atravessou. Ela pegou o colar, o abriu e mostrou-me o que tinha dentro. As duas fotos eram minhas. A primeira foto era de quando eu tinha três anos de idade, no dia em que Cece nasceu. A segunda foto era no dia de meu aniversário de dezoito anos anos.

   Eu continuei sem dizer nada. Será que... ela me amava mais do que eu a amava? Ela estava morta a dois dias que pareciam ser dois anos. Deitei-me na cama, não demorou muito e Cece deitou ao meu lado. Eu estava com sono, logo dormiria. Pus minha mão em cima da mão dela, mesmo sabendo que não poderia tocá-la. Mas eu pude quase sentir, quase pude sentir que a estava tocando.


   - Sabe - disse ela -, logo você poderá me tocar de verdade.
   - Sério? Como?
   - Bom, se vou te proteger, tenho que te tocar. Quando o inimigo estiver perto de chegar, o sinal de que ele vai estar chegando vai ser...
   - Que eu vou poder te tocar.
   - É. É isso.


   Continuamos em silêncio até eu pegar no sono.


   Sonhei que Cece tinha asas de anjo. Ela estava me protegendo. Estava parada na minha frente de braços e asas abertas, com a cabeça baixa. Suas vestimentas brancas estavam todas cortadas e todo o seu corpo, até suas asas e seus lindos cabelos loiros estavam cobertos de sangue.
   Á frente dela havia um garoto, eu não conseguia ver seu rosto. Ele se parecia com um anjo, mas suas asas e roupas eram negras e seus olhos eram na cor escarlate.
   Ele tinha uma espada completamente dourada nas mãos. Ela estava coberta de sangue. O sangue de Cece.


   Eu ainda estava dormindo, mas senti uma dor terrível, como se a espada dourada do garoto tivesse atravessado meu corpo. 


   Acordei atordoado, gritando. Levantei-me da cama e senti a dor novamente. Pus a mão onde doía e caí de joelhos no chão. Observei a cama de Cece e havia uma mancha de sangue onde eu estava deitado. Meu olhos se arregalaram e eu olhei para mim mesmo. Eu tinhas cortes no corpo todo. Meu pijama estava ensopado de sangue, mas eu já não sangrava mais.
   Olhei para todos os lados. Não havia ninguém no quarto comigo. Levantei-me com muita dificuldade e caindo muito por causa da dor, tentei ir até meu quarto.
   Quando cheguei ao meu quarto peguei uma calça, uma camisa e roupa de baixo limpa. Fui ao banheiro e tomei um banho para limpar as feridas. Joguei a roupa ensanguentada no cesto de roupas sujas e peguei o quite de primeiros socorros dentro do armário debaixo da pia e tratei meus ferimentos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O último dia. (parte 10)

   Ela parou de falar e suspirou.
   - Tem mais. Ele ainda disse mais.
   "- Porém, existem aqueles que tem o coração sombrio. Estes não podem ser purificados e nem virar aprendizes. E eles não vem para cá. Eles vão para a sala de baixo, e esta fica nos confins do inferno. Quando vão para lá, passam a ser chamados de caídos. Os superiores de lá mandam os caídos virem para a Terra, e fazer mal ás pessoas. Algumas dessas pessoas são específicas. Elas são as pessoas que os aprendizes devem proteger."
   - Foi o que ele disse. Mas nós, aprendizes, só podemos vir a Terra quando nos é notificado que um caído vira atacar nossos protegidos.
   - Ce... ce... Ma-mas porque você virou uma aprendiz? Porque não é um anjo? Que desejo pendente é esse? E porque EU sou o seu protegido?


   Eu estava assustado. Um caído viria me pegar. Ele queria me machucar. Mas porque Cece não era um anjo? Eu era quem ela mais amava? Eu soava frio. Eram muitas coisas para assimilar.


   - Sou uma aprendiz porque tinha um desejo pendente antes de morrer. Meu desejo era... Eu... Eu queria ficar com você para sempre. Mas eu morri, e não pude ficar com você. Por isso não sou um anjo. E Jesse, eu amava você mais do que qualquer pessoa no mundo. Amava você mais do que nossos pais.


   Eu estava paralisado. Cece não pode virar um anjo por minha causa. Ela só tem que me proteger porque virou uma aprendiz, e porque virou uma aprendiz um caído vai vir atrás de mim.
   - É tudo culpa minha - disse -.
   - O que está dizendo? É culpa sua o que?
   - Culpa minha você não ser um anjo. Você não pôde virar um anjo por minha causa, porque me amava demais. Você só tem que me proteger porque virou uma aprendiz por minha causa, e porque virou uma aprendiz um caído vai vir atrás de mim. É tudo culpa minha Cece.
   Cece ficou com raiva. Sentou-se na cama e tentou me bater, mas não conseguiu. Todas as vezes que tentava atravessava meu corpo.
   - Seu idota - ela dizia -! Porque sempre acha que a culpa de tudo é sua? Eu estou feliz por poder te proteger, porque você sempre me protegeu. A minha maior felicidade agora é poder ser a sua anjinha da guarda. Então porque se culpa?
   Eu tentei tocar seu rosto, mas minha mão atravessou sua cabeça. Cerrei os punhos e disse:
   - Estou me culpando porque sei que vai se machucar me protegendo.

O último dia. (parte 9)

   Senti um calafrio e frio, muito frio. Olhei para o lado e mal pude acreditar no que vi. Levei o maior surto de minha vida, até cai da cama. Estava apavorado.
   - Eu... não... acredito...
   Ela sorria para mim. Ela estava lá, ela realmente estava lá.
   - Olá Jesse.


   Ela estava lá. Estava rindo da minha queda. Realmente era ela.
   - Francamente, você não muda mesmo depois de morta - disse -.
   - Morri, mas ainda sou a mesma pessoa.
   Eu sorri, subi na cama e tentei abraça-la. Tentei.
   - Eu estou morta Jesse, não pode me tocar. Sou como a imagem de um projetor de imagens.
   - Porque posso te ver e te ouvir, mas não posso te tocar?
   - Como eu não sei, só sei que pode. Estou morta, você não seria capaz de me ver, me ouvir e me tocar. No entanto, graças aos meus superiores, você é capaz de duas delas.
   - Você é um fantasma, Cece?
   - Não.
   - Um anjo?
   - Uma aprendiz.
   - De anjo?
   - É.


   Estava assustado. Aquilo tudo era muito surreal. Ser capaz de ver uma pessoa que morta... Eu estava louco, ou aquilo realmente estava acontecendo?
   - Porque você está aqui?
   - Para te proteger - ela disse -.
   - Me... proteger? Você que é a alma aqui, eu sei me virar!
   - Ah Jesse... Mesmo ainda estando vivo, é tão cabeça dura.
   - Está me irritando. Vamos, explique, porque está aqui e o que veio fazer.
   - Já disse, vim para te proteger.
   - E porque você? Ainda é uma aprendiz. Porque não enviaram um anjo completo?
   Ela suspirou, pôs a mão sobre a testa e disse:
   - Está bem, vou dizer tudo o que sei.


   - Vejamos... Vou começar desde quando morri.
   Ela suspirou, deitou-se na cama e começou a falar.
   - Quando morri, sei que estava dormindo. Não sei para onde fui, mas parecia que estava sonhando. Era tudo muito claro. De repente, eu estava sentada em uma cadeira em um sala que parecia ter paredes de nuvens. E tinha um velho lá. Ele falou comigo.
   "- Olá Cece. Bem-vinda á sala do trono. Vou lhe explicar tudo. Você morreu. Todos que morrem vem para cá. Aqueles que tem o coração puro e nenhum desejo pendente antes da morte, passam a ser chamados de anjos quando chegam ao céu. Estes tem três tarefas, e estas são: dar instruções para aqueles que chegam a sala do trono, ficar na Terra para proteger humanos inocentes e serem mestres dos aprendizes.
   Aqueles que tiveram suas almas corrompidas durante sua vida na Terra, são purificados e enviados ao céu para descansarem para sua próxima vida. Quando chegam ao céu, passam a ser chamados de guardiões. Eles protegem o céu daqueles que querem entrar  para fazer o mal. Aqueles que não tem maldade no coração e tinham algum desejo que não conseguiram realizar antes de morrer, como você, viram aprendizes de anjos e passam a proteger a pessoa que mais amavam antes da morte. Estas pessoas são chamadas de de protegidos."

sábado, 13 de agosto de 2011

O último dia. (parte 8) - A segunda carta


   Querido Jesse,

   Estou te escrevendo para lhe falar da minha doença. Como você sabe, andei fazendo uns exames... Pois é. Eu tenho câncer. E eu vou morrer, meu câncer não tem cura. Nós o descobrimos tarde demais para fazer um tratamento, o máximo que posso fazer agora é tomar remédios para não sentir dor.
   Não sei quanto tempo ainda vou viver, mas o médico disse que vou saber quando meu último dia chegar.

   Esta carta é para você, mas você não irá recebê-la. Ela é para que eu possa desabafar, já que não gosto de diários. É muito fru-fru.
   Não me leve a mal, mas te amo, então não quero que sofra, ok? Você me entende, não é? Você faria a mesma coisa por mim.
   Pode ficar com raiva de mim depois que eu morrer e você descobrir que eu tinha câncer e que eu não lhe contei. Eu entendo.

   Até minha morte, quero viver normalmente. Só papai, mamãe e o médico sabem que estou doente. Mas eu sei o que vou fazer no meu último dia. Vou passá-lo com você.

   Olha Jesse, te amo. Te amo mais que tudo. E sinto muito não poder cumprir a promessa que fizemos um ao outro. Eu não quero ir, quero ficar com você. Para sempre. Mas eu não tenho controle sobre minha vida. Não sou a dona morte.
   Desculpe-me por ser tão fraca a ponto de ter uma doença que irá me matar.

   P.S: Não fique triste quando eu morrer. Vou partir, vou virar uma anjinha, mas vou sempre olhar e estar com você. Não se preocupe. Não ficarei longe. 
            Quando sentir minha falta, feche os olhos e respire fundo. Saberá que estou pensando em você.

                                                                                       Cece.

   Ah, Cece... Você nunca se preocupou consigo mesma - pensei -.
   Uma lágrima rolou pelo meu rosto. Eu sorri.
   Prometemos ficar juntos para sempre. Promessa de dedinho.
   - Sua bobinha... Você está bem ao meu lado agora, você está cumprindo a promessa.

O último dia. (parte 7)

   Eles não vieram. Então voltei para dentro de casa por conta própria. Meus pais estavam sentados na mesa de jantar. Estavam calados. Me juntei a eles, todos ficamos calados. Por fim, minha mãe disse, olhando para mim:
   - Querido, você vai querer estrogonofe?
   Fiz que sim com a cabeça e ela pôs meu prato.
   - Não quero comer, estou cansado. Vou dormir - disse meu pai -.
   Eu e minha mãe jantamos sozinhos, depois do jantar eu a ajudei a botar a louça na máquina de lavar louças.


   - Filho, você sabe o que seu pai tem? Ele não quis jantar, estrogonofe é o prato favorito dele.
   Fiz que não com a cabeça. Fui ao banheiro escovar meus dentes e tomar um banho. Meu pijama e minhas pantufas ficaram sujos por eu ter ido ao jardim com eles. Cece tinha me dado um pijama estampado de céu com nuvens e pantufas de brancas. Eu os usei.
   Fui ao quarto de Cece para voltar a olhar a caixa que ela deixara para mim, mas as coisas não estavam como deixei. Papai tinha mexido na caixa. Ele viu algo que o perturbou, por isso estava daquele jeito no jantar.


   Cerrei os punhos. Porque tínhamos que passar por tudo aquilo aquilo? Meus pais e eu estávamos sofrendo, cada um do seu jeito. Porque tivemos que perdê-la? Porque aquele maldito câncer tirou minha irmã de mim?
   Eu estou sendo totalmente egoísta - pensei -. Meus pais estão sofrendo tanto quando eu, talvez até mais.
   Mas eles não mostrariam isso para as outras pessoas. Eles são fortes, e principalmente, queriam me proteger. Me fazer sentir menos dor. Eles ainda estavam ali. Eu não estava sozinho. Eu tinha pessoas que cuidariam de mim.
   Eu não estava feliz, mas estava aliviado. Eu tinha meus pais.


   Voltei a olhar a caixa. Não tinham muitas coisas nela. Eu não lembrava das coisas que ainda tinham nela, exceto uma.
   Tinha outra carta de Cece para mim. Mas essa não era recente, era do ano de 2006. Cece tinha dez anos e eu tinha treze.
   Fiquei nervoso. O que será que ela tinha escrito ali?
   Eu abracei a carta, forte, em meu peito. Eu a amacei. Eu não tinha coragem para ler aquilo naquela hora. Mas eu tinha que ler.
   Abri o envelope. Comecei a ler a carta.
Fuckin Perfect - P!nk

Comunicado.

   Pararei de escrever a história "Uma Outra História para Peter Pan.". Pelo menos por um tempo, eu espero.
   É uma história limitada. Tem fatos que sou obrigada a por em minha história por causa do filme. Sinceramente, não sei se tenho capacidade para fazer um bom trabalho sem ser em uma criação livre como "O último dia.".
   Escreverei boas histórias para compensar. Prometo. Desculpem-me.


Victoria Dias.

O último dia. (parte 6)

   Peguei o segundo objeto da caixa. Era uma boneca. Cece ganhara de nosso pai em um natal. A boneca quebrou, eu a consertei, mas não ficou muito boa. Cece não brincou mais com ela. Pensei ter feito algo errado. Então ela guardou - pensei -.
   O terceiro objeto era uma caixinha de música. Eu a botei em meu colo e dei corda, mas não funcionou. A melodia que tocava era a favorita de Cece. Ela escutava a melodia uma vez ao dia, antes de dormir, mas a caixinha quebrou. Cece não chorou, nem fez escândalo. Ela apenas disse: "Ela é tão linda. Não vou mais poder vê-la dançar.".

   Eu não consegui olhar mais. Não consegui olhar para todas aquelas coisas. Doía muito.
   Deixei as coisas do jeito que estavam. A coleira de Bernie e minhas fotos com ele, a boneca e a caixinha de música em cima da cama. Nem se quer fechei a caixa. Eu estava perto da porta, quando meu pai disse:
   - Você não precisa ver essas coisas, se não quiser.
   Eu parei enquanto ele falava, depois voltei a andar. Fui até a cozinha ver minha mãe. Comer, se o jantar já estivesse pronto.

   - Ah, querido, você voltou. Vá descansar um pouco, o jantar já está quase pronto.
   - Não quero. Vou no jardim. Me chame quando estiver pronto, por favor.
   - Está bem, mas troque de roupa. Ainda está de pijamas, não quero que pegue um resfriado.
   - Não precisa. Estou bem, de verdade.
   - Está frio. Vista ao menos seu casaco Jesse, por favor, por mim - ela fez seu biquinho -.
   - Ah! Odeio quando você faz isso!
   Ela sorriu.


   Fui ao meu quarto e vesti meu casaco, calcei minhas pantufas e coloquei meu gorro. Voltei a cozinha para mostrar a minha mãe que estava agasalhado o suficiente para não pegar um resfriado. Ela sorriu e eu sai de dentro de casa.

   Lá fora está realmente frio. A lua iluminava tudo, aquela noite estava bem clara. Fui ao canteiro de rosas de minha mãe e colhi uma rosa branca para ela. Ela adorava esta flor, era a sua favorita.
   Mesmo estando com os corações doloridos, meus pais estavam fazendo o possível por mim. Meu pai não sabe fazer isso direito. Ele é meio trancado. Minha mãe cuida de mim. Sempre cuidou, mas quando eu estava triste os cuidados eram multiplicados.
   Isso meu fez pensar no quanto amo minha mãe. Ela é tudo para mim. Ela é meu porto-seguro. Ela é... minha mãe. E é isso que as mães são, portos-seguros.

   Voltei para casa pela porta dos fundos, para que mamãe não me visse. Fui ao meu quarto, peguei um pedaço de papel e escrevi algo nele. Fui a cozinha, minha mãe não estava. Deixei a rosa branca e o papel em cima da mesa da cozinha, para que ela visse. Voltei para o jardim e sentei no nosso banco de balanço. Esperei que ela ou meu pai me chamassem para o jantar.

O último dia. (parte 5)

   Ah, porque estou lembrando disso agora? Já não é sofrimento o bastante perder minha irmã? - pensei -. Fiquei com raiva. Gritei o mais alto que pude. Deitei na cama dela, ainda abraçado com seu travesseiro. As lágrimas escorriam em minha face. Fiquei com raiva. Não de Cece. Fiquei com raiva por ela não poder mais estar aqui. Eu falei baixo, quase sussurrando, com a voz muito, muito fraca:
   - Minha Cece...


   Levantei-me. Fui até seu armário. Procurei a tal caixa na cor rosa claro. A peguei e voltei para a cama de Cece. Abri a caixa, mas não acreditei no seu conteúdo.
   Ela guardara aquelas coisas por todos aqueles anos.


   - Toc, toc - disse meu pai, entrando no quarto dela -. Você está bem?
   - Não tanto quanto gostaria.
   - E essa caixa?
   - Cece me deixou uma carta, e nela disse que esta caixa é minha. Eu a peguei para ver o que tem dentro.
   - Posso ver?
   Fiquei em silêncio. Tirei o primeiro objeto da caixa. Meu pai tirou suas botas e se sentou na cama comigo.
   O objeto era... Era a coleira de nosso antigo cachorro, Bernie. Ele morreu porque já estava velho demais. Eu nunca quis outro cachorro. Eu amava Bernie. Também tinham  duas fotos minhas com Bernie. Uma no dia em que o compramos, na loja de animais e a outra, quando ele estava idoso. Duas semanas antes de morrer.


   - Lembro do dia em que comprei Bernie para vocês. Vocês passaram meses me pedindo um cachorrinho, por fim, dei Bernie de natal a vocês.
   Continuei em silêncio. Eu sempre pensei que quando não se tem nada a dizer, não se deve dizer nada. Que não se deve forçar o que falar. Que temos que deixar as palavras fluírem naturalmente.

O último dia. (parte 4)

   Chorei enquanto lia a carta. E continuei chorando quando abracei o travesseiro dela para sentir seu cheiro. O cheiro dela... Seu perfume... O perfume que dei a ela no natal. Minha irmã, ela, sempre foi ela. Ela sempre foi a pessoa mais importante para mim. Ela era quem eu mais amei.
   Eu ainda lembro, eu ainda lembro de quando éramos crianças e estávamos viajando com nossos pais em Nova Iorque. Ela queria ir ao central park, mas as ruas estavam interditadas. Estava nevando muito.
   No dia seguinte, acordei mais cedo que todo mundo, acordei Cece e a mandei se vestir para sairmos.
   Eu tinha guardado aquele dinheiro para comprar o novo boneco de ação da loja de brinquedos, mas ver o sorriso de minha irmã valia mais a pena que todos os bonecos de ação da loja.
   Escrevi um bilhete para meus pais dizendo aonde íamos e quando voltaríamos. Os mandei não se preocupar. "Cece está comigo, vou protegê-la.", foi a última frase do bilhete.


   - Jesse, nós vamos nos encrencar - disse Cece enquanto apertava o potão do elevador -.
   - Talvez. Mas vale a pena, não é - disse isso enquanto olhava para o teto do elevador, então olhei para baixo para ver Cece. Suas bochechas estavam coradas e ela sorria, olhando para o chão -?
   - Sim.


   Aproveitamos muito. Visitamos cada milímetro do central park e comemos alguma coisa, não lembro o que, em uma barraca ambulante de comida ali perto. Então voltamos para o hotel.
   Quando chegamos, nossos pais estavam no quarto assistindo televisão. Cece tirou o casaco e foi tomar banho. Eu fui falar com nossos pais.


   - P-pai, mãe, desculpem-me, eu só queria fazer Cece feliz - disse, de cabeça baixa -.
   Meu pai se levantou. Caminhou em minha direção e me abraçou.
   - Você é um bom irmão Jesse... Você é um bom irmão...
   Ele me soltou, mas sua mão segurava meu ombro firmemente.
   - Está de castigo - disse ele, sorrindo -.
   Eu também sorri, e acenei que sim com a cabeça. Fui até o quarto em que eu e Cece estávamos dormindo. Tirei meu casaco, os tênis e meias, o gorro, as luvas e as camisas. Estava só de calças (achava que assim era mais confortável). Me deitei na cama de casal em que eu e minha irmã estávamos dormindo, e dormi profundamente, com um sorriso estampado na cara.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O último dia. (parte 3) - A carta

   Quando finalmente acordei, estava em meu quarto. Levantei de minha cama, atordoado. Fui cambaleando, encostado nas paredes, até o quarto dela. Ela não estava mais lá. Senti meu corpo desmoronar. Cai de joelhos no chão de seu quarto e voltei a chorar.
   Levantei-me. Fui á cozinha. Minha mãe estava lá, preparando o jantar.
   - Mãe... Onde ela está?
   Ela não respondeu, nem se quer olhou para mim.
   - Mamãe, onde ela está?
   - Ela está no céu Jesse – ela disse isso chorando. Não sei se por causa de Cece, ou das cebolas que estava cortando. Mamãe era forte, quase nunca chorava -.
   - Onde está o papai – disse enquanto sentava-me em uma das cadeiras da cozinha, segurando os joelhos e olhando para o nada -?
   - Eu não sei. Jesse... V-vá ao quarto de Cece. Em sua mesa de cabeceira tem uma carta endereçada a você.
   Eu me levantei sem dizer nada. Fui ao quarto de minha irmã, peguei a carta e sentei em sua cama para ler. Abri o envelope. A carta dizia:


Jesse,

   Eu sinto muito por não manter aquela minha promessa de quando éramos crianças. Mas, eu tive que partir, não é? Todos têm que partir um dia. Eu não sou exeção.
   Eu lhe devo explicações.
   Primeira explicação: Eu tinha câncer pulmonar. E essa foi a causa de minha morte.
Segunda explicação: Sei que você me ama. Também sei que não suportaria me ver doente, por isso pedi a papai e mamãe que não lhe contassem nada. O meu câncer não tinha cura, eu morreria de qualquer jeito. Não queria que você sofresse a toa.
   Eu sabia que ontem seria meu último dia, por isso quis passá-lo com você. Por isso fizemos todas aquelas coisas e tiramos todas aquelas fotos. Queria que você tivesse fotos minhas para quando eu me fosse.
   Sei que devia ter te contado, mas Jesse, eu amo você demais. Não podia vê-lo sofrer por minha causa, eu ficaria muito infeliz, ser doente e infeliz não dá né?
   Talvez você não entenda, talvez esteja com raiva de mim, mas fiz o que achei que era o melhor a se fazer.

   Me perdoe, por favor.
   Eu estarei olhando sempre por você, papai e mamãe. E por Joanne também. Olharei por todos.
   Tem uma caixa na cor rosa claro em meu armário, dentro dela tem umas coisas que quero que você veja. A caixa é inteiramente sua. São coisas nossas. Talvez não lembre delas, mas eu as guardei por todos esse anos, com muito carinho.

                                        Adeus Jesse,
                                             me perdoe. Me perdoe por favor...

                                                                      Da sua irmã, Cece.

O último dia. (parte 2)

   Eu não tinha me dado conta, mas Cece já não respirava mais. Meus pais apareceram na porta do quarto dela, chorando, e minha mãe disse:
   - Querido, Cece já não está mais entre nós.
   Meu corpo se paralisou. E-ela MORREU ? - pensei -. Meus olhos se arregalaram e eu passei minutos no mesmo estado. Quando finalmente sai de meu transe, olhei para Cece, abracei seu corpo gélido e comecei a chorar.
   Como ela pode? Como ela pode fazer isso comigo? Como ela pode me deixar? Minha irmã... Minha irmãzinha querida... Como você pode me deixar?
   De repente, a pergunta que Cece me fez no lago no dia anterior surgiu em minha cabeça. Ela sabia que ia morrer. Papai e mamãe também deviam saber. Porque eu não sabia?
   Deixei o corpo de Cece e fui até a sala de estar, onde meus pais estavam.
   - Vocês sabiam não é? Vocês sabiam. Porque eu não sabia? - as lágrimas caiam de meu olhos como se fossem parte de uma cachoeira -.
   - Querido - respondeu minha mãe -, Cece pediu para não lhe contar, ela não queria que você soubesse.
   - Porque? O que ela tinha? Porque não quis me contar?
   - Jesse – disse meu pai, pondo a mão sobre o ombro de minha mãe -, ela tinha câncer. Descobrimos isso a alguns anos. Ela não queria que você soubesse, porque sabia que você não ia aguentar vê-la doente.
   - Ela não tinha esse direito – disse, cerrando os punhos e começando a correr para o quarto de Cece -.
   - Jesse! Jesse! Voltei aqui!

   Pulei em cima da cama de Cece, a abracei e comecei a chacoalhá-la.
   - Cece, vamos Cece, acorde, você tem que acordar! Vamos Cece, acorde, acorde! V-você tem... tem que acordar... Por favor... Acorde...
   Senti perder todas as minhas forças. Soltei Cece e cai ao seu lado na cama. Eu não conseguia me mexer. Ela estava dormindo. Ela tinha que estar dormindo. Ela não morreu. Isso é um sonho, um sonho - pensei -. Eu estava exausto. Dormi ao lado dela.

O último dia. (parte 1)

   Naquela manhã, Cece me acordou do mesmo modo de sempre. Pulou em cima de mim e me fez cócegas até que eu começasse a chorar. Ela me mandou vestir minhas roupas, disse que íamos sair.
   - Cece, para onde vamos?
   Ela não respondeu. Continuou puxando minhas mãos para que eu seguisse seu ritmo.
   - Cece, por favor, aonde estamos indo? Me diga.
   Ela se virou para mim, sem parar de andar, deu aquele seu lindo sorriso e por fim, disse:
   - Vamos ter um dia de diversões.

   Cece estava me levando para dar um passeio pela cidade. Eu sempre quisera fazer isso. Primeiro ela me levou a uma loja de doces. Compramos gomas de mascar, quebra-queixos, balas, chocolates, pirulitos... Compramos de tudo. Depois fomos a uma loja de brinquedos (porque Cece me levou até lá?). Cece brincou com os brinquedos e me pediu para tirar fotos.
   Fomos a loja de animais e compramos uma coelhinha de estimação para nós. Demos seu nome de Joanne.
   Por fim, Cece me levou ao lago. Comemos nossos doces e tiramos uma foto nossa com nossa coelhinha.

   - Jesse, se eu sumisse - disse Cece -, você sentiria minha falta?
   Fiquei espantado com sua pergunta e passei algum tempo em silêncio, mas por fim respondi:
   - O que você esta dizendo? Isso é bobagem. Você não irá sumir. Você não pode sumir. Eu não posso deixar, preciso de você.
   Cece olhou para o horizonte, para o sol se pondo e sorriu como se estivesse sentindo alguma dor. Ela não disse mais nada.

   Voltamos para casa, jantamos com nossos pais e fomos para a cama. Demorei a dormir. Fiquei pensando na pergunta de Cece.

   Acordei muito bem humorado na manhã seguinte. Fui ao quarto de Cece e tentei acordá-la. Ela não se mexia, não importava o quanto eu a chacoalhasse. Seu corpo estava frio.
   - Cece, vamos Cece, acorde, acorde.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Inuyasha - 1° encerramento
(música Meu Desejo)
Estou Aqui - Jota Quest
(filme O Planeta do Tesouro)

Conto número 1. - (10\8\2011)

   Só escutava a melodia de meu quarto. Não a escutava de nenhum outro lugar da casa. Não sabia de onde vinha, parecia vir de todos os lugares. Achava que estava louca, ou tendo um sonho absolutamente absurdo.
   A melodia soava triste, como se alguém tivera acabado de morrer. Parecia vir de um caixinha de música. A melodia continuou. Todos os dias, do crepúsculo ao amanhecer.
   Só eu escutava aquela melodia triste. Nem meus pais, minha avó ou meu primo. Somente eu.
   Eu não dormia enquanto a melodia tocava.
   Fui a psicólogos e psiquiatras. Fui a vários especialistas, mas não adiantou. Todos diziam a mesma coisa a meu pai, e esta era essa: "Ela está louca, Precisa interna-la". Mas eu não estava louca, a melodia existia.
   Papai me internou, e eu passei o resto da minha vida no sanatório, sendo cuidada por enfermeiro que me sedavam para que eu pudesse dormir á noite, quando a melodia começava.
   Em fim, eu morri. Com 30 anos de idade, por causa de um tumor em meu cérebro. Minha alma não deixou a Terra. Pude ver meu enterro.
   Não sei por que, mas não fui para algum outro lugar. Permaneci na Terra, mesmo não sendo mais humana. Permaneço aqui até hoje.
   Eu estou aqui agora, observando esta jovem escrever minha história, como se fosse eu á contá-la. Sem ao menos saber que estou aqui, e estou olhando para ela.


   Adeus, pessoas vias e meus companheiros fantasmas - por alguma razão, meus queridos, nós não fomos para o céu ou para o inferno-.


                                             Janette.

Uma Outra História para Peter Pan. (parte 2)

Querido Hugo,

   No que diabos você está pensando? Mande-os para cá assim que possível! Agora que sei de sua situação financeira, vou mandar as passagens dos garotos e todo o dinheiro que puder mandar para você para ajudar por aí. Mandarei mensalmente uma quantia, não sei quanto vai ser, pois minha renda mensal não é exata e tenho contas a pagar.
   Por Deus, porque não me disse isso antes e pediu minha ajuda? Se tivesse me dito isso há alguns meses teria dinheiro o suficiente para pagar suas dívidas, mas como você sabe, alguém incendiou minha livraria e tive que reformá-la por completo. Consegui salvar alguns poucos livros, mas todos estão em estado precário. Por isso não posso ajudá-lo mais.
   Assim que me recuperar de minha “crise” pagarei suas dívidas e você e Belinda virão para Corntown para morar comigo e com os garotos.  Montarei uma loja para você e então não terá mais que se preocupar com dinheiro. Ah, meu querido, não se preocupe. Tudo vai dar certo, você verá! Estou com você, ainda este ano comemoraremos o natal, juntos.
                                                                        
                                                                 Atenciosamente,
                                                                                 Elizabeth.

   As marcas das lágrimas de Tia Elizabeth caíram na folha de papel enquanto ela escrevia. As manchas não saíram. Quando o pai de Peter recebeu a carta e a leu, pode ver as marcas das lágrimas de Tia Elizabeth, pode sentir sua raiva por não poder ser mais útil. Ele se sentiu culpado por não ter pedido a ajuda da irmã antes. Não por ele, mas por Elizabeth.
   Ele podia sentir que ele e sua família eram muito amados por ela, uma filha bastarda. A única família de tia Elizabeth antes de encontrar a família Pan era sua tia Juddy. Esta cuidou dela desde que a mãe de tia Elizabeth morreu 3 meses depois de dar a luz a Elizabeth, por não ter se recuperado do parto.
   Hugo podia sentir, ela os amava tanto porque eram sua única família. 

Uma Outra História para Peter Pan. (parte 1)

   Ah, ainda me lembro da primeira vez que Peter foi até a janela de Wendy escutar as histórias que ela contava para os irmãos mais novos, João e Miguel, que tinham respectivamente sete e quatro anos de idade.
   Mas quem são Miguel, João, Peter e Wendy? Porque estou falando deles? Bem, é uma história longa, por isso escrevi este livro para contá-la. Vamos começar com Peter.
   Não se sabe ao certo a história de Peter antes de ele chegar á terra do nunca, ele não se lembra, ou pelo menos diz não lembrar. Mas alguns rumores dizem que os pais de Peter eram muito pobres, tão pobres que não tinham dinheiro para alimentar seus dois filhos. O mais velho era Lucas, tinha quatorze anos de idade, e é claro, Peter. Depois de muito, muito tempo, com uma dor enorme no coração e a ameaça do gerente do banco de levar embora os garotos para trabalharem como escravos em uma mina de carvão para saldar as dívidas, o pai dos garotos resolveu mandar seus filhos para sua tia, Elizabeth, para que ela cuida-se deles por uns tempos. Os pais dos garotos realmente sentiam uma dor no coração, não queria fazer aquilo. Mas não existia escapatória. O gerente do banco, senhor Buttont, iria atrás dos garotos em breve.
   Bom, devem estar se perguntando, mas se o senhor Buttont iria atrás de Lucas e Peter, porque mandá-los para sua tia Elizabeth? Aí é que está, tia Elizabeth foi descoberta á pouco. Ela era uma irmã perdida do pai de Peter. Senhor Buttont não sabia dela.
   Os garotos não queriam ir, mas não havia outra maneira. O pai de Peter escrevera a tia Elizabeth contando o acontecido e pedindo sua ajuda. Tia Elizabeth era uma mulher jovem e bondosa, nunca iria recusar um pedido desses. Ela já conhecera seus sobrinhos recém achados e se encantou com cada um deles. Ela não iria deixar o malvado senhor Buttont levá-los para uma mina de carvão, então respondeu a carta do pai de Peter da seguinte maneira: