sábado, 13 de agosto de 2011

O último dia. (parte 7)

   Eles não vieram. Então voltei para dentro de casa por conta própria. Meus pais estavam sentados na mesa de jantar. Estavam calados. Me juntei a eles, todos ficamos calados. Por fim, minha mãe disse, olhando para mim:
   - Querido, você vai querer estrogonofe?
   Fiz que sim com a cabeça e ela pôs meu prato.
   - Não quero comer, estou cansado. Vou dormir - disse meu pai -.
   Eu e minha mãe jantamos sozinhos, depois do jantar eu a ajudei a botar a louça na máquina de lavar louças.


   - Filho, você sabe o que seu pai tem? Ele não quis jantar, estrogonofe é o prato favorito dele.
   Fiz que não com a cabeça. Fui ao banheiro escovar meus dentes e tomar um banho. Meu pijama e minhas pantufas ficaram sujos por eu ter ido ao jardim com eles. Cece tinha me dado um pijama estampado de céu com nuvens e pantufas de brancas. Eu os usei.
   Fui ao quarto de Cece para voltar a olhar a caixa que ela deixara para mim, mas as coisas não estavam como deixei. Papai tinha mexido na caixa. Ele viu algo que o perturbou, por isso estava daquele jeito no jantar.


   Cerrei os punhos. Porque tínhamos que passar por tudo aquilo aquilo? Meus pais e eu estávamos sofrendo, cada um do seu jeito. Porque tivemos que perdê-la? Porque aquele maldito câncer tirou minha irmã de mim?
   Eu estou sendo totalmente egoísta - pensei -. Meus pais estão sofrendo tanto quando eu, talvez até mais.
   Mas eles não mostrariam isso para as outras pessoas. Eles são fortes, e principalmente, queriam me proteger. Me fazer sentir menos dor. Eles ainda estavam ali. Eu não estava sozinho. Eu tinha pessoas que cuidariam de mim.
   Eu não estava feliz, mas estava aliviado. Eu tinha meus pais.


   Voltei a olhar a caixa. Não tinham muitas coisas nela. Eu não lembrava das coisas que ainda tinham nela, exceto uma.
   Tinha outra carta de Cece para mim. Mas essa não era recente, era do ano de 2006. Cece tinha dez anos e eu tinha treze.
   Fiquei nervoso. O que será que ela tinha escrito ali?
   Eu abracei a carta, forte, em meu peito. Eu a amacei. Eu não tinha coragem para ler aquilo naquela hora. Mas eu tinha que ler.
   Abri o envelope. Comecei a ler a carta.