Ah, porque estou lembrando disso agora? Já não é sofrimento o bastante perder minha irmã? - pensei -. Fiquei com raiva. Gritei o mais alto que pude. Deitei na cama dela, ainda abraçado com seu travesseiro. As lágrimas escorriam em minha face. Fiquei com raiva. Não de Cece. Fiquei com raiva por ela não poder mais estar aqui. Eu falei baixo, quase sussurrando, com a voz muito, muito fraca:
- Minha Cece...
Levantei-me. Fui até seu armário. Procurei a tal caixa na cor rosa claro. A peguei e voltei para a cama de Cece. Abri a caixa, mas não acreditei no seu conteúdo.
Ela guardara aquelas coisas por todos aqueles anos.
- Toc, toc - disse meu pai, entrando no quarto dela -. Você está bem?
- Não tanto quanto gostaria.
- E essa caixa?
- Cece me deixou uma carta, e nela disse que esta caixa é minha. Eu a peguei para ver o que tem dentro.
- Posso ver?
Fiquei em silêncio. Tirei o primeiro objeto da caixa. Meu pai tirou suas botas e se sentou na cama comigo.
O objeto era... Era a coleira de nosso antigo cachorro, Bernie. Ele morreu porque já estava velho demais. Eu nunca quis outro cachorro. Eu amava Bernie. Também tinham duas fotos minhas com Bernie. Uma no dia em que o compramos, na loja de animais e a outra, quando ele estava idoso. Duas semanas antes de morrer.
- Lembro do dia em que comprei Bernie para vocês. Vocês passaram meses me pedindo um cachorrinho, por fim, dei Bernie de natal a vocês.
Continuei em silêncio. Eu sempre pensei que quando não se tem nada a dizer, não se deve dizer nada. Que não se deve forçar o que falar. Que temos que deixar as palavras fluírem naturalmente.